A falta que faz um Roberto Campos

Neste momento em que o Brasil e o mundo vivem em torno de problemas econômicos, sinto mais do que nunca a falta da lanterna que iluminou parte de minha geração, a figura singular de Roberto Campos.

No Brasil, estamos atravessando essa crise com uma proposta de ajuste, sem a apresentação de outros caminhos. O governo conta com o que vem propondo, e a oposição se limita a criticar.

Roberto Campos conhecia os homens e o jogo ideológico, tendo vivido intensamente o pós-guerra, o duelo da economia de mercado com a centralização socialista. Conhecia as manhas, os argumentos inconsistentes e fora da realidade. Foi a seu tempo um profeta, pois seu envolvimento tinha lastro na realidade e não em utopias.

Consagrado e respeitado, no final da vida, Roberto não fez do Brasil o “tigre asiático” que chegou a imaginar, no momento certo, pelo seu temperamento de homem tímido e sem disposição de impor teses. Apenas as apresentava, no seu estilo acadêmico de professor nato.

Tendo acompanhado seus últimos 15 anos de vida muito de perto, assisti a seu desencanto com a Constituinte, com o Plano Collor, com a maneira com que se trataram as privatizações, a política fiscal e trabalhista, que, no seu entender, afastava investidores.

Era realista, observava que a luta se travava no campo político pela via dos chavões da esquerda. E sofria com a passividade dos ditos liberais e defensores da economia de mercado.

Ficou desanimado com o fato de fundos controlados por estatais participarem de acordo de acionistas nas empresas privatizadas. Achava que os fundos de previdência e outros deveriam se limitar aos conselhos fiscais para tomar conta do investimento e não da gestão de empresas.

Quando FHC criou o contrato de gestão na Petrobras, ficou horrorizado. O presidente, sem entender a crítica, perguntou se tinha alguma restrição à diretoria da empresa. E Roberto, perplexo com a ingenuidade do governante, respondeu que não tinha nada a se opor àquela diretoria. Mas quis saber se o presidente poderia garantir que os outros, daí para frente, seriam de reputação tão ilibada. Via longe, pragmático e com base em larga experiência.

Quando me manifestei no início do drama grego – no sentido de que a Grécia não pagaria, não queria pagar e ganharia tempo, pressionando a União Europeia politicamente e com apoio russo –, estava tentando adivinhar qual seria a opinião de Roberto sobre o interlocutor do mundo financeiro. Por ele, tenho a convicção, não se teria perdido esse tempo todo, engordando as esquerdas mais radicais dos demais países em programas de austeridade.

Esse homem notável, se tivesse o carisma de seu adversário Carlos Lacerda, por exemplo, teria feito do Brasil uma grande Coreia do Sul. Acreditava no papel da livre empresa como indutora do progresso e na prioridade pública para a educação e qualificação da mão de obra nacional.

Defendia a presença do Estado em economia como a nossa no crédito de médio e longo prazo para novos empreendimentos, daí ter sido o idealizador e dirigente do BNDE – ainda sem o S – com Vargas e JK.

Roberto Campos hoje estaria defendendo a prioridade na simplificação fiscal, na desregulamentação e na atração de investidores através de um ambiente favorável ao capital. É uma política externa sem o pieguismo de se dar o que não temos, em troca de uma pretensa liderança de países falidos e corruptos.

Falta neste momento uma lanterna na proa – e não na popa – com os fundamentos claros e objetivos com que Campos nos brindou em sua pregação liberal.

Aristóteles Drummond é jornalista e escritor. Autor de Um caldeirão chamado 1964 – depoimento de um revolucionário (Resistência Cultural, 2013) e organizador do best-seller O homem mais lúcido do Brasil – as melhores frases de Roberto Campos.

Fonte: Expresso Liberdade